Child’s Park
O que representavam para você as azaleias?
Estavam tão felizes aquelas garotas, arrancando os galhos,
Abraçando seus buquês ousados, seus suntuosos enxovais,
Flores úmidas, de pétalas quentes. Aproveitando o dia,
Se divertindo à grande. Você enfrentou-as de frente
Com um olhar assassino, encapuzado.
Como se estivessem roubando as tochas
Do seu incêndio. Mais que depressa levei você embora. Rãs
A conduziram pelo emaranhado de ninfeias. Sua fúria
Tinha que ser extinta. Água pesada,
Funda, mais funda, esfriando e controlando
O seu segredo de plutônio. Você respirava água.
Libertos, tranquilizados, de volta à superfície, seus olhos
Pousaram de novo nas cores, delicados,
Partindo o prisma,
Como libélulas sobre as ninfeias sólidas.
O pica-pau cristado estremecia
Entre as catalpas. Agarrava-se ao dorso
Dos troncos, e alçava voo
Feito um pterodáctilo. O giro diabólico
Da cabeça, a se desenroscar, as asas sinistras,
E o grito horrendo
Escancaram o jardim.
Você nunca esteve
A mais de um passo do Paraíso.
Você tinha acesso instantâneo, segundo o seu analista,
Ao fundo do seu Inferno –
Num ângulo ensolarado
A fonte despia os sete véus
Enquanto o ar balançava. Ali, a sua escada –
As sete cores da alquimia.
Eu vi você subi-la, sozinha,
E entrar na boca da azaleia.
Você imaginou uma defloração com véus rompendo-se,
E um renascer solar – os dois juntos
E no entanto idênticos. Você seguia intrépida
Rumo ao encontro com seu Pai.
O Verbo dele realizado, ali, no centro nuclear.
O que acontece no coração apenas acontece.
Eu me afastei. Aquele brilho,
Lançando longe os eus antigos, como roupas de baixo,
Deixava radiativo o seu Éden inteiro.
HUGHES, Ted. Cartas de aniversário. Rio de Janeiro: Record, 1999.
(E a belíssima tradução de Paulo Henriques Britto.)